segunda-feira, 17 de março de 2008

Nando é um daqueles amigos que aparecem do nada e você recebe de braços abertos como se fosse aquele velho e inseparável amigo de infância.E foi assim hoje.Chegou aqui já foi se estendendo no sofá pediu um cafézinho e escreveu este conto que é emocionante. É muito bom saber que existem pessoas como este cara. E é uma alegria muito grande recebê-lo aqui no sofá do amigão.



ALOHA!
Ela era a garota mais estudiosa, a mais inteligente, só que também uma das mais feinhas da escola. Magrela e branquela, pálida que nem defunto, as perninhas finas e tortas. Usava aparelho nos dentes e uns óculos enormes de armação preta. Chamava-se Maria Clara, mas todos a chamavam de Clarinha, apelido que combinava perfeitamente com sua pele branca. Se tinha uma única coisa bonita em sua estranha aparência, eram os cabelos, longos até quase a cintura, pretos e brilhantes. Só isso, somente os cabelos e nada mais. Tínhamos os dois doze anos de idade, éramos vizinhos e estudávamos na mesma sala. Brigávamos o tempo todo, nossas mães diziam que a gente era pior que cão e gato. Ela, toda certinha e educada, e eu, o terror da escola, um dos que mais aprontavam. Vivia me dedurando para a diretora e por causa dela levei várias suspensões. Éramos opostos extremos, eu passava as tardes todas na praia, pegando ondas, era um grommett, um surfista mirim, minha maior diversão era rabiscar as morras. Ela jamais ia à praia, não pegava sol, vivia enfurnada dentro de casa lendo e estudando, quando saia era somente para ir à biblioteca.
Mesmo morando lado a lado, no fim das aulas não íamos embora juntos. Ela costumava levar a mochila abarrotada de livros e cadernos, devia ser um peso enorme, e certa vez ofereci ajuda para carregar algumas coisas.
- Se quiser pode me passar uns livros pra eu levar na minha mochila, tá quase vazia. O caminho é o mesmo, não custa nada.
- Não. Minha mãe não quer que eu ande com meninos. Muito menos meninos assim... como você! – apertou o passo e foi andando na frente, apressada.
Então sempre na hora de ir para a escola e na hora de ir embora, íamos andando cada um em uma calçada, como se fôssemos estranhos. Chegávamos na escola e logo surgia algum motivo para brigas, vivíamos de bate-boca.
Uma vez, voltando da praia, descalço, bermuda molhada e prancha debaixo do braço, vi um caminhão parado em frente à casa dela, alguns homens enfiando móveis dentro, a mãe e o pai ajudando. Meu coração apertou, um pressentimento ruim. Parei ali, sondando, quando ela me viu veio falar comigo, a voz triste:
- Estamos indo embora. Papai conseguiu emprego melhor em Florianópolis.
Fiquem sem saber o que dizer. Eu não esperava. Já havia me acostumado com ela. Não que eu gostasse dela, mas, quer dizer, com quem eu iria brigar na escola? Eu acabava me divertindo, gostava de provocá-la para vê-la brava. E ela ficava ainda mais feia quando se enfurecia. Mas ali, naquele momento, com aquela tristeza estampada no olhar, ela até me pareceu um pouco... bonita!
Me surpreendi quando notei que ela chorava. Eu nunca a tinha visto chorar. O pior foi que senti aquele bolo na garganta e, quando vi, chorava também. Então nos abraçamos. Bem forte. E enquanto chorávamos abraçados, eu sentia uma leve e gostosa fragrância de amêndoa em seus longos cabelos negros. Aos doze anos, eu nunca sentira até então tal emoção.
- Adeus! – e ela se foi, para sempre.
A lembrança mais forte e mais agradável que me ficou de Clarinha foi o perfume de amêndoa de seus cabelos.

Aos 19 anos fomos eu e mais dois amigos fazer um trip em Flopripa. Minha maior paixão sempre foi o surf. Meu pai já me ensinava desde pequeno que cada onda propicia uma emoção diferente, ele sim era um big-rider. Estávamos explorando aqueles picos, ondas boas para improvisar manobras, crowd total, surfistas à beça competindo espaço, quando um grupo de três heavy locals se aproxima de nós. São os caras que não gostam de surfistas de fora em suas praias.
- Aqui não tem espaço pra haoles, sacou? Muito menos se forem cariocas. Truta demais pra pouca onda.
- A praia é livre, mermão, não tem dono não.
Não quiseram saber de argumentos, esses caras são barra pesada, vieram pra cima da gente. Batemos mais do que apanhamos e eles foram embora, amarelados. Estávamos já saindo da água com nossas pranchas quando os três retornam, desta vez acompanhados, e eram muitos. O bando iniciou uma ferrenha perseguição contra a gente, e, como não éramos loucos de encarar aquilo tudo, disparamos a correr. Eu olhava para trás e vinham uns cinco atrás de mim, ao atravessar a rua quase sou atropelado por um jipe, que freia bem em cima:
- Qual foi, pra quê a pressa? – pergunta a moça que dirigia.
- Aqueles caras tão atrás de mim!
- Entraí, vambora. Rápido!
Àquela altura eu já havia perdido meus amigos de vista. Subi no jipe e ela acelerou, deixando os encrenqueiros pra trás. Quando, já aliviado, reparei a tremenda gata que estava do meu lado, mal acreditei. A garota era linda! Morena de pele bronzeada, cabelos curtos tingidos de louros, expressão firme e atraente, com piercing no lábio inferior. Usava bermuda e camiseta curtinha, era um corpo dourado e tentador como eu jamais havia visto.
- Qual o seu nome? – perguntou ela, pra quebrar o silêncio, notando que eu a olhava fixamente.
- Me chamam de Suel, já dei aulinha de surf pra crianças e aí sabe como é, , só ondulação... E você?
- Pode me chamar de Morena.
E bota morena naquilo! Uma mulher perfeita! Reparei uma prancha no banco de trás.
- Tu surfa? – perguntei.
- Campeã de surf feminino na região – respondeu com um sorriso.
Ela me levou pra casa dela, os pais estavam fora, almoçamos e conversamos a tarde toda, até aparecer uma visita, um rapaz.
- Ah, agora você vai conhecer meu namorado.
Então ela tinha um namorado! E, para minha surpresa, era um dos rapazes que expulsou a gente da praia. Para não se denunciar à namorada, ele fingiu que não me reconheceu e eu resolvi ir embora.
- A gente se vê por aí – ela me disse ao se despedir.
-É... a gente se vê.
Não a tirei mais da cabeça, pensei nela o tempo todo, à noite e no dia seguinte. Íamos voltar pra casa naquela noite e, à tardinha, fui dar uma caminhada na praia. Me sentei na areia e me deparei com ela entre as ondas, deslizando agilmente com a prancha sobre as cristas, cheia de beleza, os cabelos dourados e a pela cor de jambo, queimada de sol. Por um instante me lembrei da Maria Clara, eu estava ali na mesma cidade que ela, sete anos depois, nunca mais a vira. Por onde andaria a Clarinha, estaria perto? Morena saiu da água e veio andando em minha direção. Ao me ver, sorriu e sentou do meu lado.
- Eu não disse que a gente se via?
- É... Mas é a última vez – respondi. - Estamos indo embora hoje à noite.
Ela me olhava fixamente, meio sorrindo, me analisando sem nada dizer. Fiquei sem jeito, olhei pra areia. Quando levantei o olhar novamente, seus lábios estavam se aproximando perigosamente dos meus. Antes que eu pudesse reagir, ela me envolveu e me beijou loucamente, nossos lábios se misturavam se tornando um só. Um desejo impulsivo tomou conta de mim, meu corpo em brasas, nos rolamos na areia...
- Eu sabia que este dia iria chegar. Valeu a pena esperar – sussurrou ela enquanto eu deslizava minha boca em seu pescoço, sentindo o cheiro de seus cabelos curtos, uma leve fragrância de... amêndoas!
- Morena... – eu disse, num reflexo instantâneo, encarando-a de frente, nos olhos. – Como é mesmo que você se chama?
- Maria Clara... – deu uma risada. – Clarinha só para a família, Morena para os mais íntimos.
E novamente se apossou de minha boca

Nando Damázio


Surfista das palavras e aspirante a escritor, seu primeiro "best-seller" é uma novelinha juvenil que você acompanha em capítulos neste blog-livro às segundas e quintas feiras. Nos outros dias, durante os intervalos, pegamos onda em assuntos do cotidiano jovem, os livros que a gente curte, papos-furados, papos-cabeça e coisinhas afins.

E se você não conhece ainda a novela clique aqui e veja tudo que já aconteceu n' A Melhor Novela de Todos os Tempos do Último Verão.
Foi um prazer amigão, recebê-lo aqui hoje

13 comentários. Clique e deixe o seu!!:

NANDO DAMÁZIO disse...

Online e operante !!
Foi um prazer, Amigão !!

Juliana Gulka disse...

História sensacional!
Parabéns, parabéns, parabéns!!
beijocas!

Rosamaria disse...

Parabéns ao Nando! ótima história, guri!

Parabéns ao amigão por trazer esse guri praá.

Bjim pros dois.

Suzi disse...

clarinha malandrinha, hein!
valeu, nando!
o texto prendeu a atenção do leitor!
a primeira parte do conto, a descrição inicial, foi tão perfeita, que a gente conseguiu imaginar as cenas da escola, da calçada, do caminhão, e até sentir o cheirinho de amêndoas do dia da mudança.

Cidão disse...

Aposto que já deve ter uma cadeira pronta para o Nandico ocupar na ABL daqui a alguns anos. ;o)

Éverton Vidal disse...

O Nando é phoda... me amarrei no conto.
Excelente idéia amigao!
Abraços.
Inté!

Du disse...

hummmmm...muito bom, muito bom mesmo! Foi como um filme passando na minha mente, vi todos os detalhes, senti a surpresa dele e a emoção dela!
Nando, tu tem um futuro brilhante, menino!

Amigão, parabéns pela iniciativa!

Beijos pros dois.

Gaguinho disse...

Amigão !!
to passando por aqui para lhe informar que estou temporariarmente desativando meu blog!!!
naum sei qndo volto e nem se vou voltar, mas oh foi um prazer fazer parte da turma do amigao!!
obrigado por me acolher aqui cara!!
abraço

Amigao disse...

Nando, muito obrigado pela visita e pelo conto sensacional. Sem dúvida um post show de bola.
Foi muito legal ter você por aqui amigão.

Juliana Freitas disse...

Aaaaaaai, fiquei com inveja do jabá! hahahahahaha

O "chatonildo" aí tem futuro... É, de fato, um ótimo escritor!

E muito legal você tê-lo trazido pra cá!

Beijocaaaaaas!

MUTUMUTUM disse...

Caraca! O Nandão manda bem demais :)

Como detetive que sou, já imaginava que a Morena só poderia ser a Clarinha... hehehehe... já aconteceu alguma coisa assim comigo; mas de forma diferente: reencontrei um ex-babaquinha da minha turma de ensino fundamental (e atual engenheiro da computação) casado com uma ex-ex-ex-baranguinha da mesma turma (e atual gostosona)... ou seja, não foi comigo :D

As coisas mudam...

Abraços... pro Amigão e pro Nandão

Rui Carlo disse...

Concordo com o Mutum: Final previsível, porém não menos emocionante... gostei muito da memória olfativa, realmente é uma das memórias mais marcantes na gente... o conto é excelente, a narrativa prende a gente

NANA disse...

Música e perfumes, marcam demais a gente. Belo conto Nando.
Aff, chato isso de ficar falando que vc tem futuro... Coisa repetitiva! =P
Bjs.!

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