terça-feira, 25 de março de 2008

Enroladinhos de Repolho
mais uma do Lula Vieira


"Minha avó se chamava Altina de Lima e era muito, muito rica. Chegou a ter fazendas e escravos e foi a única pessoa que eu saiba que andou de cadeirinha. Minha avó era paulista e tinha uma casa imensa na Rua das Palmeiras, uma rua meio aristocrática na época, perto do centro de São Paulo. Quando meu avô morreu, velho fazendeiro e comerciante descobriu-se a boa bisca que ele era. Mais do que isso: boa bisca e doidivanas. Como se falava na época.

De sua inesgotável riqueza, o jogo, as putas, as mulheres não-putas, os credores e os advogados ficaram com tudo. Sobrou para minha avó a imensa casa da Rua das Palmeiras e a penca de filhos adotados nos tempos de fausto. Dentre eles minha mãe, lindíssima filha de italianos imigrantes que minha avó resolveu criar, dando-lhe nome e fortuna. Nome deu, mas fortuna acabou nesse golpe do destino, como já contei. Daí Nhá Altina (Natina no linguajar das empregadas da casa), na falta de outros talentos, decidiu transformar a casa em pensão para estudantes do interior que quisessem morar na capital e também decidiu transformar-se em costureira.
E foi administrando uma pensão de uns 10 quartos e se matando na máquina de costura que minha avó educou cinco filhos adotivos oficiais e mais outros tantos agregados que seu coração generoso jamais deixou de dar abrigo. Todos viraram professores, economistas, empresários. Sem problemas ou complexos, sem duvida maiores.
Até a morte de todos eles, estavam unidos pelo laço imenso do amor de Natina. Mas o que importa aqui é comentar dos enroladinhos de repolho. Acontece que um dia minha vó sentou-se na cama, fumando seu cigarro Elmo, olhou para a empregada e disse: “Caralho!” e deitou-se. A empregada pouco se preocupou.Minha avó, apesar de finíssima e elegante, jamais pejou-se em utilizar essa linguagem desabrida. Podia ser “caralho” como “puta-que-o-pariu” ou “puta merda”, teriam sido palavras comuns. Mas o deitar-se às 11 da manhã era, sim, motivo para preocupação. Quando foi ver o que havia, já era tarde. Minha vó tinha ido embora.
Foi um dia triste para muita gente. Muita gente mesmo. Natina tinha cuidado dos filhos adotivos, dos namorados e namoradas dos filhos, dos filhos dos filhos (inclusive eu que era - modéstia a parte – seu favorito) e era amada.
O enterro foi – como-se diria hoje – um sucesso. O velho cemitério da Consolação quase não deu conta de tantas pessoas que vieram levar a velha para a sepultura.
Quando nós, os mais velhos voltamos para casa, tivemos uma enorme surpresa. No fogão, prontinhos, havia centenas de enroladinhos de repolho, muito mais do que o dia-a-dia da casa poderia precisar. A velha tinha feito dez vezes mais enroladinhos do que o costume, sabe-se lá porque. Ou melhor, claro que todos nós entendemos.

A mesa foi posta e começamos a comer os enrolados, a principio graves e pensativos. Depois, não me lembro se foi minha irmã ou meu primo tabelião, ou meu tio médico, alguém começou a lembrar de histórias da minha vó. Roubando no jogo, contando piadas, rindo da vida, falando mal da vida alheia, sendo pedida em casamento pelo pai do governador Carvalho Pinto, mandando Presidente da República tomar no cú. E começamos a rir, como se a velha ainda estivesse por ali.
E acabamos com os enroladinhos de repolho, a ultima delicadeza da velha Natina, a mulher que foi tão gentil que cozinhou para o próprio funeral. Para não dar trabalho para ninguém.”.

Lula Vieira é publicitário, jornalista e radialista e escreve todas as segundas no Caderno de Propaganda e Marketing, esta história foi publicada no dia 21/01/08.

7 comentários. Clique e deixe o seu!!:

Juliana Gulka disse...

Nossa, excelente idéia!
Mesmo, mesmo.
Aqui no sul esses enroladinhos se chamam aluske, uma delícia não?
Beijocas da JU

NANDO DAMÁZIO disse...

Eu já conheço como "charuto" ..
É uma delícia, deu até vontade agora, um tempão que não como isso ..
but, but ..
Beijocas do Nando !! :P

Jhow Carvalho disse...

Nossa que história interessane sabe que muittas vezs as pessoas fazem um ´velório só pra se reunirem e as vezes até esquecem do morto, que morreu.

Falou...
Abraços...

NANDO DAMÁZIO disse...

velório só pra se reunirem e as vezes até esquecem do morto, que morreu.

HAUHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUAHUAHAUHAUAUAHUAHAUAHAUHAUAHAUAHUAHAUAHAUAHUAHA ..

Ai, ai, essa foi melhor do que a história .. Putz !! :´)

Lorena disse...

Primeiro: eu adoooooooro enroladinhos de repolho, ou como eu chamo, charutos! São aqueles com carne moída dentro, né?? Delícia!^^

Bom, adorei ler sobre a vida da sua vó, ela me parece ter sido uma mulher realmente fantástica. Aliás, a maioria das avós têm o dom de serem fantásticas, e o deslumbramento por elas só aumenta com o passar do tempo e parecem que atingem seu auge depois que elas nos deixam, né? Pelo menos pra mim as minhas estão cada dia mais queridas!

Abraços!! ;)

NANA disse...

É... ontem foi dia de falar de Vó!
Mas essas coisas de vó, são muito boas mesmo.
Eu também conheço esses enroladinhos como charutos.
Bjs.!

Apenas "eu" Luis felipe ! disse...

charuto não e aquilo que o Sr Eumico Miranda fuma? ae show, gostei muito da historia... fui. abraço.

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