sábado, 13 de outubro de 2007

A Mídia

A midia ficou por ultimo, mas não se trata apenas de uma casualidade, a frase "porra esqueci da mídia" é dita ao final de 9 em cada 10 apresentações de prospects, planejamento anual de comunicação, campanha de reposicionamento, enfim, qualquer apresentação de agência em que exista algo além da mídia pra ser mostrado. Pode parecer ilógico, estúpido, imbecil, idiota e é mesmo. Afinal, depois de mostrar como a campanha foi desenvolvida e mostrar a dita cuja em toda a sua beleza e esplendor, nada mais natural que se diga quanto é que aquele devaneio vai custar. Mas isso ninguém quer saber numa apresentação. Só o pessoal da mídia, que varou três noites preparando a apresentação, negociou com veículos sem poder dizer pra que cliente era e foi atrás de novas alternativas.
Enfim, alguém tinha que trabalhar de verdade numa agência de publicidade. O dinheiro tem que vir de algum lado.No final das contas a mídia é a parte chata de toda campanha publicitária. É a mídia que diz que aquele multipage interativo com cor e faca especiais que ia ser veiculado na Veja não vai sair porque a verba só dá pra fazer meio rodapé P&B na Contigo.É a mídia que avisa pro atendimento que o veículo não vai mais prorrogar o prazo de entrega de material pela 14ª vez porque o cliente ainda não decidiu nada. É a mídia que diz pro cliente que aquele desconto de 90% no preço de tabela do veículo que ele exigiu não rolou, mas que, se ele aceitar investir 90 vezes mais, quem sabe a negociacão melhore um pouquinho. Enfim, ser mídia é dar más notícias aos queridos atendimentos, clientes e criativos, que ao final das contas só não conseguem colocar um trabalho criativo e maravilhoso na rua por causa dela. Trocando em miúdos, é na mídia que os problemas de verdade aparecem e se resolvem. Vai ver que é por isso que as outras áreas da agência nem sabem que ela existe, ou preferem não saber. É meio que a onda que destrói o castelinho de areia do maravilhoso mundo da publicidade. Mas ser mídia tem muitas vantagens. Os prêmios por exemplo. É claro que existem prêmios de mídia, mas em vez de ganhar aquelas estátuas lindas, requintadas, a mídia ganha prêmios em (pasmem) dinheiro!. Sim, aquela coisa vulgar, suja, seja em espécie ou seja em bônus em publicações. Uma coisa sem glamour, sem classe. Uma pobreza. Coisa similar ocorre também com os presentes que a mídia recebe no final do ano, por exemplo. Um amigo meu, redator, recebeu de uma produtora de comerciais ano passado uma magnífica e requintada escultura de um artista plástico guatemalteco cego (desculpem, deficiente visual). Era uma pedra. Pintada de azul. Meu amigo achou linda, até ligou para agradecer. Já uma amiga minha que é diretora de mídia, ganhou 12 perus, 3 tenders, 17 panetones, 7 champagnes (sendo 3 Veuve Cliqueots e 4 Cidras Cereser), sem falar nas agendas que distribuiu pela agência toda. Que pobreza.Outra grande vantagem da mídia são as festas e shows para os quais ganham convite. Sempre aquelas coisas grandiosas, cheias de gente, muito "pop", muito brega. Pobre se contenta com pouco, sabe como é. Outra desvantagem da mídia e ser praticamente invisível. Ninguém da criação vai falar com você, aliás, ninguém da criação sabe que você existe. A não ser quando chega a época dos festivais em que eles vem todos dengosos pra conseguir umas veiculações de graça pra esquentar os fantasmas geniais que eles criam. E quando ganham qualquer coisa, claro, nem se lembram de agradecer. O atendimento fala com a mídia apenas o desnecessário. Afinal, todo mídia sabe que resolver as coisa diretamente com o veículo ou com o cliente acelera o processo em mais ou menos umas 100 vezes. E como o atendimento não tem idéia do que a mídia faz também, não se mete. Detalhe: toda perua do atendimento adora chegar toda rebolativa com suas roupinhas da Daslu e jóias do Antonio Bernardo na sua mesa e te fazer qualquer pergunta estúpida só pra trocar o seu nome e mostrar o quão insignificante você é pra ela. Exemplo: você se chama Eduardo e ela diz "Edvaldo, aqueles GRP’s que a gente ficou de mandar pro veículo já estão prontos?". Dai você começa a explicar pra ela que seu nome é Eduardo, Que GRP não é isso, e no meio disso tudo o celular dela toca. Ela atende na sua frente, esquece de você e fica 20 minutos na sua mesa falando com a amiga de baladas, rindo alto e jogando o cabelo louro pra lá e pra cá. Quando acaba, fecha com chave de ouro: "Olha se isso demorar mais, vou ter que falar direto com a sua chefe, hein" e sai, linda e loura. Há que se acostumar com esse tipo de coisa, infelizmente.Mas deixando o sarcasmo e a ironia de lado trabalhar na mídia basicamente é ter um emprego de verdade, numa área de verdade, com colegas de verdade. É não ter que se vestir para ir à agência como se estivesse indo pra entrega do Oscar, é poder gostar de pagode, fazer churrasco no fim de semana e convidar os amigos e a família. É ter família e vê-la de vez em quando. É chegar cedo pra trabalhar e sair cedo quando puder (e ficar até mais tarde se precisar, só se precisar). É poder dizer que vota no Maluf sem apanhar dos pseudo-comunistas que o rodeiam (e que também votam no Maluf mas não assumem). É ir em muita festa, muito show, rir, cantar, dançar e se divertir depois do expediente (e ainda ter o gostinho especial de chegar na criação, num dia em que não vai poder sair cedo, com 10 ingressos pro show fechado dos U2 e dizer: "ah, pena que já são 10 da noite e o show era às 8…fica pra próxima"). É poder ser feio, bonito, gordo, magro, branco, negro, gostosa, baranga e não ter que se preocupar com isso na hora de arranjar um estágio ou um emprego. É ser normal. Como todo mundo que trabalha em qualquer outro lugar, em qualquer outra área.

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